Restaurando o Ardor Missionário

Uma convocação urgente ao fervor espiritual


O conteúdo deste artigo foi originalmente proferido pelo autor na II Conferência Teológica Para Pastores e Líderes da Associação Evangélica Pastores Amigos, realizada no dia 21 de junho de 2011, na Missão Vida em São Sebastião/DF, com o tema: “Restaurando o Ardor Missionário”. Portanto, o texto é fruto de uma transformação e adaptação do conteúdo para melhor assimilação e identificação. Almejamos colaborar para a conscientização e capacitação missionária da igreja.

Texto Bíblico: Ap 3.14-22


“Ao anjo da igreja em Laodiceia escreve:
Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”


Antes de falar sobre a igreja de Laodiceia é necessário definir as palavras que formam o título desta mensagem: “Restaurando o Ardor Missionário”.

O que significa restauração? Restaurar significa consertar, reparar, reformar, voltar à originalidade, voltar ao primeiro amor. Se falamos sobre “Restaurando o Ardor Missionário”, logo, pressupõe-se que já houve o ardor missionário, porém, que foi perdido. A nossa oração é para que Deus restaure esse ardor na vida daqueles que o já tiveram e que o coloque no coração daqueles que nunca tiveram.

A segunda palavra é ardor. Ardor significa intensidade, brasa, paixão e energia. Quando se fala em paixão pelas vidas sedentas da Palavra de Deus não se refere ao sentido das ondas do mar que vem e passam. Porém, no sentido da paixão que Jesus teve. Tamanha paixão que o levou à cruz do Calvário.

E a terceira palavra é missionário. A palavra “missionário”, deriva do latim, tem o mesmo sentido básico do termo grego “apóstolo” (enviado). Missionário é toda pessoa que está empenhada com o anúncio do Evangelho. É o agente autorizado da igreja, antes por Deus, e por ela enviado a proclamar a mensagem do Evangelho. Oswald Smith disse: “Cada coração com Cristo é um missionário e cada coração sem Cristo é um campo missionário” . Portanto, missionário é todo aquele que se converteu ao Senhor Jesus, e campo missionário é toda pessoa que não conhece a Jesus.

O texto que acabamos de ler faz parte do livro de Apocalipse. Segundo Ronaldo Lidório, a palavra “apocalipse”, em português, evoca um sentido escatológico, relacionado com as “últimas coisas” (eschatos). Em inglês, “revelation”, dá-nos a ideia de “descoberta”, “revelação”. Entretanto, em grego, “apokalypses” significa “trazer à tona o que está encoberto”.

Observemos o contexto em que vivia a igreja de Laodiceia:
Para corrigir a igreja de Laodiceia, Jesus levou em conta o contexto em que a mesma vivia. A igreja de Laodiceia era uma igreja sem propósito e sem espiritualidade. Não era uma igreja fervorosa. Era uma igreja que não tinha compromisso. De todas as cartas às igrejas da Ásia, esta é a mais severa. Em momento algum Jesus elogiou a igreja de Laodiceia . Mas isso não quer dizer que Ele não a amava.
Laodiceia, localizada no vale do rio Lico, próxima à atual Denizli, era uma cidade abastada e possuidora de terras férteis ao seu redor. Foi fundada em 250 a.C., por Antíoco da Síria, apesar de que ela só veio a ter mais importância aí por volta de 196 a.C. E esse nome Laodiceia vem do fato de que a cidade foi criada e fundada em homenagem à esposa dele, Laódice. Laodiceia significa “justiça para o povo”. A população era composta de nativos da Ásia Menor, mas havia uma grande população de sírios e judeus que tinham sido trazidos por Antíoco II desde a Babilônia para povoarem a região, quando ele criou aquele assentamento. De modo que a presença judaica era forte, poderosa e intensa. Tinha um enérgico comércio e uma posição privilegiada e elevada no sentido financeiro. Nos tempos romanos, era a cidade mais rica da Frígia , vastamente conhecida por seus estabelecimentos bancários, sua escola de medicina e sua indústria têxtil . Era o lar dos milionários. Orgulhosamente recusou a ajuda de Roma quando foi devastada por um terremoto em 60 d.C. Distava 160km de Éfeso, e 80km de Filadélfia, no encontro de três estradas importantes. Possuía teatros, um estádio e um ginásio equipado com banhos. No entanto, perdia para as cidades vizinhas em outras áreas. Sua principal fraqueza era a falta de bons suprimentos de água. Não havia nela suprimentos de água; esta vinha de uma fonte que ficava a certa distância e, provavelmente, chegava a seu destino morna, através de pequenos canos de barro. Estava localizada entre duas grandes e conhecidas cidades da região: Hierápolis e Colossos.

Hierápolis ficava ao norte. Conhecida em toda região por suas fontes de águas quentes, sobre as quais se dizia possuírem poderes medicinais e terapêuticos, usadas por pessoas com problemas ósseos, reumáticos, respiratórios e tantos outros. Era um lugar de cura e terapia para o corpo.

Colossos ficava ao sul. Era ainda mais conhecida, pelas suas fontes de águas frias, uma espécie de oásis, no verão, para onde as multidões afluíam. Na entrada da cidade havia uma inscrição com os dizeres: Lugar de refrigério.

Jesus desejava que a igreja de Laodiceia fosse quente ou fria. Fria como a água de Colossos (que tivesse a função de refrigério) ou quente como a água de Hierápolis (que tivesse a função terapêutica de trazer alívio aos aflitos). Contudo, a igreja de Laodiceia era tépida. Era como sua água: morna. “A água morna e barrenta causava vômito”, é intragável. A igreja de Laodiceia tinha a cara da cidade. Ela perdera o seu ardor (3.16-17), seus valores (3.17-18), sua visão (3.18b) e suas vestimentas (3.17-22). Em vez de transformar a cidade, a igreja tinha se conformado a ela. Assim como a cidade era transigente, a igreja se tornou. Os crentes de lá não tinham entusiasmo e eram de caráter débil, comprometidos com o mundo. Eram orgulhosos com sua prosperidade e de simulação religiosa. Desandou-se a ser uma igreja anêmica e mortiça.
É fato a carta não mencionar perseguições romanas, problemas com os judeus ou dificuldades com falsos mestres. Porém, era uma igreja acomodada e nominal. Estava tomada pela indiferença. Tornou-se morna e apática. Faltavam fervor e ardor espiritual. Devemos buscar, hoje, luz para a nossa mente e fogo para o nosso coração.
Diante disto, surgem algumas perguntas: Como restaurar o ardor missionário? Como atender a convocação urgente ao fervor espiritual? Como ser uma igreja terapêutica?

Em primeiro lugar, devemos tratar o nosso coração para depois nos envolvermos na missão. O versículo 15 diz: “Conheço as tuas obras...”. O texto utiliza a expressão “erga” para obras. “Erga” se refere a atos puramente pessoais. Não se trata de grandes realizações ou façanhas, mas da rotina da vida diária. Ou seja, Jesus está dizendo que nos conhece por dentro. Aqui fica evidente a seriedade e importância do caráter cristão. O “ser” sobrepõe-se ao “ter” e ao “fazer”. Ronaldo Lidório disse: “O caráter precede a missão”. Jesus está expondo que conhece a nossa rotina fora do templo. Está afirmando que julga a nossa vida além das máscaras, que conhece o nosso caráter inteiro e completamente. Caráter é como somos de fato, mesmo quando ninguém está por perto. Já reputação é como os outros nos vêem, independentemente de como somos. Muitos têm uma boa reputação, mas um péssimo caráter. Outros têm uma péssima reputação, talvez manchada pelos outros, porém têm um bom caráter. Outros têm um péssimo caráter e uma péssima reputação. E ainda outros têm um bom caráter e uma boa reputação. O fato é que Deus não se impressiona com nossos ministérios e obras. O que Ele espera de nós é santidade e fidelidade. Espera caráter e verdade, ao invés de resultados e reputação.
Diante de Cristo as nossas máscaras, hipocrisias e aparências caem por terra. A maquiagem pode até esconder alguns dos nossos defeitos diante dos outros, porém, jamais os encobre diante de Deus. Se preciso for, façamos uma cirurgia plástica para corrigir as nossas imperfeições com o Grande Cirurgião: Jesus. Não podemos viver de aparências, nem mesmo de “sucesso”, mas de sacrifício, de constância e de nova vida em Cristo. Deus não nos chamou para o “sucesso”, mas para a fidelidade e santidade ao Senhor. Jesus nos conhece em casa, no trabalho, na escola, na faculdade e na rua. Como Alfredo dos Santos Oliva disse: “Podemos passar um verniz de crente em nossas vidas e até convencer as pessoas de que somos supercrentes, mas não vamos conseguir enganar a Deus, que tudo vê e tudo conhece”.
Antes de orarmos ou ofertamos, e até mesmo pregarmos o Evangelho é necessário sermos tratados pelo Evangelho. A Palavra de Deus é pregada principalmente pelo testemunho de vida. Francisco de Assis disse aos seus discípulos: “Vão e preguem o Evangelho, e se possível falem”. Ou seja, pregue com a vida e depois se der, pregue com os lábios. Sendo assim, a Bíblia nos conduz a tratarmos o coração antes de nos envolvermos na obra missionária.

Em segundo lugar, devemos deixar de ser indiferentes. O versículo 15 diz: “... que nem és frio nem quente...”. Jesus expressa um desejo para o presente: “gostaria que fôsseis”. O Mestre está dizendo aqui que sabe quando somos pessoas espiritualmente indiferentes. A indiferença espiritual é pior do que a frieza. Uma igreja indiferente é uma igreja que vive de aparência. É uma igreja que causa náuseas em Jesus. Dá ânsia de vômito. Água morna é repulsiva, serve somente para ser cuspida fora. A igreja indiferente é morna. A igreja morna é aquela que cede com o mundo e, em procedimento, se assemelha à sociedade ímpia ao seu redor. Professa o cristianismo, mas, na realidade, é espiritualmente “desgraçada e miserável” (vv. 17,18). Seus membros são hipócritas que professam conhecer a Cristo, mas que não pertenciam verdadeiramente a Ele. A mornidão é a religião daqueles que “pensam” que tudo vai bem, quando na verdade está tudo errado. Deus exige atitudes integrais e sinceras. Algo aquém disso faz crer que outras coisas têm maior primazia que o relacionamento com Ele.
A igreja de Laodiceia não estava oferecendo nem refrigério para o cansaço espiritual nem cura para o doente espiritual. Ou seja, era uma igreja indolente e acomodada. Devemos ter cuidado para não nos tornarmos uma igreja assim. A igreja de Laodiceia era totalmente ineficaz, inútil e, assim desagradável ao Senhor. Era repulsiva e prejudicial aos propósitos do Senhor. Foi uma igreja que desapareceu. Da cidade só restam ruínas. Quando o texto sagrado diz no versículo 16 “vomitar-te”, expressa, originalmente, “rejeitar com desgosto”.
Uma igreja que não faz o que é errado, mas que também não faz o que é certo, para a glória de Deus, está fora de foco. A igreja deve buscar intimidade com Deus e olhar para dentro de si e para o mundo que está ao seu redor. É preciso fazer a obra de Deus pelas motivações certas.

Em terceiro lugar, devemos entender que a nossa suficiência vem de Cristo. O versículo 17 diz: “pois dizes: Estou rico e abastardo e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”. Jesus está dizendo aqui que sabe quando somos pessoas espiritualmente arrogantes. A autoconfiança e segurança da igreja de Laodiceia eram definitivamente falsas. Acomodação espiritual estava acompanhada de orgulho espiritual nesta igreja. Era uma igreja mundana. Os crentes da igreja de Laodiceia consideravam-se ricos, porém, eram espiritualmente pobres. Pensavam que não precisavam de nada. Viviam uma ilusão que alimentavam a respeito de si mesmos. De tão envolvida e submergida com as coisas materiais, essa igreja não reconhecia a sua verdadeira situação. O pecado do orgulho a transformava em uma igreja estéril, sem vida. Os crentes laodicenses diziam arrogantemente: “A nossa riqueza é devida ao nosso próprio esforço”. Eles não tinham a capacidade de distinguir entre prosperidade material e espiritual. Caíram no engano de que a prosperidade exterior é a medida de sua prosperidade espiritual. E não é diferente hoje. Muitas igrejas pensam que porque são ricas estão cheias do avivamento de Deus. Ledo engano. Existem igrejas pobres materialmente, porém, cheias da presença de Deus e igrejas ricas materialmente, contudo, vazias de Deus.
A autossuficiência desta igreja ao demonstrar “não preciso de nada...”, configurava a sua grande soberba e ao mesmo tempo seu próprio drama. Era uma igreja que amava o dinheiro, coisa esta que trazia falsa autossatisfação e cegava-a de maneira que a impedia de ter consciência de sua condição. Ela estava orgulhosa do seu ouro, roupas e colírio. Mas era pobre, nua e cega. Os seus membros pensavam que sua religião ia bem, todavia, eram mendigos apesar de seus bancos, cegos apesar de seus pós frígios e nus apesar de suas fábricas de tecidos. São mendicantes porque não têm como comprar o perdão de seus pecados. São nus porque não têm roupas apropriadas para se apresentarem diante do Rei dos reis. São cegos porque não conseguem enxergar a sua pobreza espiritual. Como disse George Ladd: “Os médicos frígios talvez ajudassem as pessoas em sua cegueira física; mas somente Cristo pode curar os olhos dos que são cegos espiritualmente”. A palavra “miserável” indica uma pessoa que é colocada como objeto de extrema piedade, digna de dó. A palavra “nu” pode significar insuficientemente trajado.
A igreja de Laodiceia precisava entender que sua suficiência vinha de Cristo. Precisava ser restaurada e avivada espiritualmente para que abandonasse sua mornidão e passasse a ser uma fonte a jorrar e a transbordar para os outros. Uma igreja restaurada missionariamente é como uma fonte de água viva. Só é possível restaurar o ardor missionário quando se compra de Cristo, roupas, colírio e ouro (conferir v. 18): roupas da justiça e da santidade, colírio para abrir os nossos olhos e nos fazer discernir e ouro que é o Reino de Deus. Ou seja, Cristo nos conclama a deixarmos de confiar em nossos bancos, em nossas fábricas e em nossa medicina e passar a confiar completamente Nele.

Em quarto lugar, devemos repensar a nossa espiritualidade. O versículo 18 diz: “Aconselho-te que compres de mim...”. Jesus apresenta-se aqui como um mercador. Seus produtos são essenciais: ouro, vestes e colírios. Seu preço é de graça. Jesus também nos chama hoje para uma conversa sobre nossa espiritualidade. A vida da igreja só pode vir de Cristo. A igreja não pode gerar avivamento por si mesma. Somente o Espírito Santo o pode. O corpo é comandado pela cabeça. Autossuficiência não existe na vida do cristão. Sem o Espírito Santo a capacidade humana é estéril. Deus não procura talentos, mas entrega. O desejo Dele não é de nos tornar máquinas de produção missionária, mas filhos autênticos, pessoas que tem missão como estilo de vida, algo natural, vívido e permanente.
Quando Jesus diz: “...que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas” (v. 18), está se referindo aos três grandes orgulhos de Laodiceia: riquezas financeiras (ouro), próspera indústria têxtil (vestes) e grande avanço na medicina (colírio). Contudo, nem todo o progresso econômico, cultural ou científico do mundo pode ser comparado com a riqueza do verdadeiro relacionamento com Deus (Os 12.8; Mt 6.19,20; Lc 1.53). A verdadeira riqueza está em Deus. Uma igreja restaurada missionariamente é uma igreja vestida de vestes brancas (santidade), onde sua vergonha não é exposta. Uma igreja em que foi restaurado o ardor missionário tem a visão de Deus, e não a visão humana. É uma igreja que tem vida em Deus, espiritual e não mundana e materialista.

Em quinto lugar, devemos mudar de vida. O versículo 19 diz: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo...”. Jesus nos corrige quando trilhamos o caminho de uma espiritualidade descomprometida. Ele nos chama a uma mudança de vida. Ele não desiste da igreja, pelo contrário, demonstra misericórdia ao repreendê-la e discipliná-la. Sua atitude em relação à igreja não era punitiva, mas disciplinadora e corretiva. Cristo chama os cristãos complacentes, negligentes, inertes, indiferentes e coniventes com o mal a mudarem de vida. Ele corrige a quem ama: “porque o Senhor corrige a quem ama...” (Hb 12.6). A pedra precisa ser lapidada para brilhar. A igreja de Laodiceia precisava arrepender-se, ou seja, dar as costas à religiosidade de aparências, de faz de conta, de mornidão. A igreja que ainda não teve uma experiência profunda de ser amada por Deus não pode curar as feridas das pessoas aflitas e assoladas. Experiência profunda com Deus é característica de uma igreja missionária. Experiência com Deus não é experiência mística, mas serviço a Deus e ao próximo. É obediência às Escrituras. Assim, hoje, devemos nos arrepender de nossa mornidão e passarmos a ter zelo pela glória de Deus. Cristo ainda nos convida para que nos arrependamos e sejamos restaurados a uma posição de fé, justiça e comunhão (v. 18,19).

Em sexto lugar, devemos buscar uma profunda comunhão com Deus. O versículo 20 diz: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”. Aqui não se trata de um texto evangelístico, para pecadores se arrependerem. Trata-se de um convite à igreja, para ter comunhão com Jesus. Aqui Jesus nos convida para uma relação de intimidade. No mundo antigo, era costume entre os judeus compartilhar uma refeição como sinal de confiança, afeição, intimidade e lealdade. O contexto dessa passagem revela uma admoestação explícita e direta aos crentes que se iludem com suas próprias conquistas e aquisições ou com uma religiosidade formal, e abandonam o leal relacionamento com Cristo e o dedicado amor ao próximo.
Observe que Cristo, o Senhor da igreja, está do lado de fora. A igreja não tem comunhão com ele. Isso nos faz pensar na história do menino Paulinho. Ele tinha dez anos de idade. Era órfão de pai e tinha seis irmãos. Todos os dias ele ia trabalhar de engraxador de sapatos para ajudar nas despesas da casa. Ele era assíduo na igreja e sempre adorava a Deus com suas finanças. Um dia Paulinho trabalhou bastante e se atrasou para ir à sua igreja. Portanto, decidiu entrar na igreja mais próxima do lugar em que estava. Colocou a sua caixa de engraxar sapatos na porta do templo, entrou e ficou no primeiro banco para ouvir melhor a pregação e entregar a Deus a contribuição daquele dia de trabalho. De repente, os diáconos daquela igreja o tiraram dali e o colocaram lá fora chamando-o de moleque sujo e nojento. Paulinho sentou-se na caixa de engraxar sapatos e começou a chorar por ter sido expulso da igreja. Então, de repente, apareceu um homem, também chorando, e perguntou ao garoto: “Paulinho, por que você está chorando?” Ao que o menino respondeu: “Estou chorando porque eu fui expulso da igreja”. Paulinho perguntou ao homem: “E você, por que também está chorando? Como você sabe o meu nome, quem é você?” O homem respondeu: “Eu sou Jesus, e estou chorando porque também fui expulso desta igreja; porque eles cantam, oram e pregam para si mesmos”.
Essa história também se repete em muitas igrejas. Elas cantam, oram e pregam para si mesmas. São ególatras. Expulsam Jesus para que elas mesmas sejam “estrelas” e “reinem”. A simplicidade do culto do Novo Testamento se perdeu e a prática da pregação está em franca decadência nos dias atuais. Pregadores não estão pregando a Bíblia, mas milagres (ao invés do Deus de milagres, antes, o Deus Redentor), promoção e atividades das igrejas (ao invés do Senhor da igreja), e filosofias e psicologias do mundo secular (ao invés do Evangelho).
O convite no versículo 20 é para um relacionamento pessoal com Cristo. É um convite para cear. Jesus nos convida para uma profunda comunhão com Ele, para adorar a Deus. Esta adoração precisa ser constantemente alimentada pela intimidade com Deus. Adoração que exige exclusividade: “Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos; porque a salvação vem dos judeus” (Jo 4.22). Adoração que não se restringe a uma localidade: “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai” (Jo 4.20,21). Adoração como estilo de vida: “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.23,24).

Portanto, podemos dizer que:
A visão de Laodiceia sobre si mesma estava errada. Ela pensava ser rica e era pobre, pensava ter visão e era cega. Era uma igreja sem missão, com as mãos fora do arado. Pensava que era viva, porém, estava morta. Precisava de vigor espiritual.
Ainda, hoje, Jesus está convocando para que os cristãos mundanos e transigentes da igreja voltem e desfrutem a plena comunhão com Ele.
Novamente, como Cristo estava procurando entrar na Igreja de Laodiceia, que leva o seu nome, mas que não contava com um único crente sequer, está também buscando entrar em nossas igrejas. É necessário tão somente reconhecer a nossa falência espiritual e responder com fé salvadora. Deus tem avivamento para sua igreja!
George Ladd disse: “Se os laodicenses tratarem seus olhos com o colírio que Cristo oferece, sendo então capazes de reconhecerem seu estado de pobreza e cegueira, então não será tarde demais para substituir a indiferença por zelo, arrependendo-se”.
Para restaurar o ardor missionário é preciso que a igreja trabalhe no desenvolvimento e treinamento de líderes servos que sejam verdadeiros exemplos de espiritualidade fervorosa e comprometida. Somente uma igreja quebrantada e santa cumprirá a vontade do Senhor.
Para restaurar o ardor missionário é preciso que a igreja estimule os membros da igreja a manter uma vida de intimidade diária com Jesus, através do estudo da Bíblia e oração.
Para restaurar o ardor missionário é preciso que a igreja estimule o serviço amoroso aos necessitados da igreja local e da comunidade externa.
Que Deus, o Senhor da missão, restaure em nós o ardor missionário, para que sejamos uma igreja fervorosa espiritualmente, pois Deus nos faz, hoje, uma convocação urgente ao fervor espiritual.

Nos laços do Calvário que nos une,
Pastor Luciano Paes Landim.

Pontos Para Discussão:
1. Defina com suas próprias palavras o título do livro “Restaurando o Ardor Missionário”.
2. Em grego, qual é o significado da palavra “apokalypses”?
3. Descreva com suas próprias palavras o contexto em que a igreja de Laodiceia vivia.
4. Como você se define espiritualmente: avivado ou morno?
5. O autor cita Ronaldo Lidório: “O caráter precede a missão”. O que você entende por isso?
6. O que você entende quando o autor diz: “Autossuficiência não existe na vida do cristão. A capacidade humana é estéril sem o Espírito Santo. Deus não procura talentos, mas entrega. O desejo Dele não é nos tornar máquinas de produção missionária, mas filhos autênticos, pessoas que tem missões como estilo de vida, algo natural, vívido e permanente”.
7. Defina o que é uma igreja restaurada missionariamente.
8. Segundo o autor, qual a diferença entre “caráter” e “reputação”?
9. Poderia destacar alguns ensinamentos adquiridos na leitura deste livro?
10. Dentre estes qual você destacaria como o principal? Por quê?
11. Gostaria de descrever alguma experiência sobre este assunto?

Bibliografia:
Barro, Jorge Henrique (Org.). Uma Igreja Sem Propósitos. São Paulo, SP: Editora Mundo Cristão, 2004.
Bíblia de Estudo de Genebra. Edição Revista e Ampliada. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
Bíblia de Estudo MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.
Bíblia de Estudo NTLH. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008.
Bíblia de Estudo NVI, org. geral Kenneth Barker. São Paulo, SP: Editora Vida, 2003.
Bíblia Shedd, ed. responsável Russel Shedd. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2009.
Fábio, Caio. O Apocalipse das Igrejas. São Paulo, SP: Abba Press, 2009.
Ladd, George. Apocalipse, introdução e comentário. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2007.
Lidório, Ronaldo. Restaurando o Ardor Missionário. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2007.
Lopes, Hernandes Dias. Apocalipse, o futuro chegou. São Paulo, SP: Editora Hagnos, 2005.
Rienecker, Fritz & Rogers Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo, SP: Editora Vida Nova, 1995.

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